Entrevistando Paula Caroline – acessibilidade e aplicativos mobile


Acessibilidade significa permitir que pessoas com diferentes habilidades e dispositivos utilizem interfaces sem impeditivos. O objetivo da acessibilidade é tornar os ambientes inclusivos, dentro da web isso significa remover barreiras de navegação e utilização dos projetos, garantindo que ninguém será excluído. Como Tim Berners-Lee, o inventor da web, observou: “O poder da web está em sua universalidade. Estar acessível a todos, independentemente de qualquer deficiência deve ser um aspecto essencial dela.” (traduzido livremente)

No Android DevConf deste ano, acompanhamos a palestra “Somos Todos Acessíveis: práticas modernas de acessibilidade no Android” de Paula Caroline. Pessoalmente, considero esse assunto muito interessante. Além disso, o enfoque prático com o qual Paula apresentou seu talk foi bastante inédito e enriquecedor para mim. Por isso, resolvi procurá-la para conversar e entender como foi a sua aproximação com a área. A seguir acompanhe a entrevista que fiz com Paula Caroline.

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Paula Caroline na Android DevConf

  • Como você iniciou com a programação para Android?

“Me formei em Mecatrônica ,e durante alguns anos trabalhei com projeto industrial. Depois de um tempo trabalhando com isto fiz o mestrado em Mecatrônica, que envolvia um pouco de programação e eu não gostava muito (pra falar a verdade várias vezes dizia que nunca seria programadora, risos). No final do Mestrado decidi fazer um curso de programação, com intuito de entender mais sobre o assunto, fiz então um curso de Java.

Logo depois comecei a brincar com Android, em casa mesmo, estudava no tempo livre. O resultado foi uma paixão, realmente era muito diferente ter o resultado de um programa nas minhas mãos.

Pra me aprofundar e seguir nesta carreira, larguei a vida mais tranquila de Florianópolis em Santa Catarina e vim pra São Paulo, onde fiz um curso de Android. Morando em São Paulo me dediquei muito à comunidade, que foi o que me ajudou a evoluir. Eu ia a todos os eventos possíveis e fazia networking com todo mundo que eu podia. Quando, na hora do café, eu não sabia sobre algum assunto, perguntava ou anotava para pesquisar depois. Eu sempre digo: a comunidade foi o que me fez ser o que sou hoje. Se não fosse pela ajuda de todos os colegas e amigos que pude encontrar na comunidade, certamente não teria evoluído tanto.”

  • O que a levou a se interessar pela acessibilidade em aplicativos?

“Já no primeiro evento que fui, o TDC Floripa, teve uma palestra de um desenvolvedor que fez um app que ajudava pessoas sem mãos e braços a digitar mensagens no celular através do sopro. Eu fiquei até emocionada quando assisti. Até então eu ainda não havia parado pra ver como era desenvolver para a acessibilidade, por isso achava que era algo super difícil de entender. Confesso que fiquei admirada quando vi que é possível tornar uma aplicação acessível com poucas modificações.

Com a acessibilidade encontrei uma forma de ajudar as pessoas, fazendo o que eu amo, que é desenvolver apps mobile.”

  • Você tem algum conselho para quem está iniciando com desenvolvimento e tem interesse na área?

“Começar é difícil pra todo mundo. O que importa é persistir bastante. No início pode parecer impossível, mas devemos persistir. A área mobile possui muitas oportunidades e necessita de mão de obra capacitada. Estar em busca de atualização e acompanhar as novidades do mercado fazem parte do nosso dia a dia.

Existem muitas formas de se começar, eu, há um certo tempo atrás fiz um post sobre dicas para quem está começando, mas não sabe por onde iniciar. Indico ir a eventos, às vezes leio no ônibus algum livro também ou assisto vídeo aulas na internet.”

  • Ainda temos uma cultura que, em geral, tende a associar a acessibilidade a algo “secundário” em projetos. Quais argumentos podemos usar para convencer os setores estratégicos das empresas a investir em acessibilidade?

“Eu tive a oportunidade de acompanhar e auxiliar recentemente um processo de implantação de acessibilidade no aplicativo de um cliente da empresa onde trabalho. Pude verificar que eu demorava cerca de um dia para corrigir de 1 a 2 itens de acessibilidade. Percebi também que houve itens de acessibilidade em que na verdade o problema não era a acessibilidade em si, mas a experiência que não estava boa. Ou seja, a experiência que o nosso usuário tinha seria ruim, precisando ou não de acessibilidade.

Quando eu tenho oportunidade de implementar uma funcionalidade com acessibilidade percebo que é muito mais rápido este processo, em alguns casos meia hora a mais na funcionalidade e está pronto.

Se sua aplicação não está acessível, provavelmente a experiência que você está oferecendo a um usuário que não necessite de acessibilidade também está ruim.

O número de pessoas no mundo que necessitam de acessibilidade é grande. Para se ter uma ideia, um senso de 2010 mostrou que 23,9% da população total do Brasil possui algum tipo de deficiência. Quando possuímos um produto, especialmente se tratando de mobile, cada usuário importa.

Ou seja, eu poderia citar mil motivos para implementar acessibilidade em apps. Uma coisa é fato: se você, durante a implementação da funcionalidade, já pensar em acessibilidade, se o designer/UX já pensar em acessibilidade, tudo fica muito mais fácil. É um processo que não deve cair sobre um desenvolvedor, é um processo da empresa como um todo, basta querer mesmo.”

  • Se quiser citar algo a mais sobre o assunto, fique à vontade.

“Não desanime se, quando for falar de acessibilidade com seu gestor, ele falar que é perda de tempo. É um trabalho de formiguinha mesmo, de ir criando esta consciência aos poucos. Não vai ser do dia para a noite que isto vai ser aceito ou apoiado.”

Através do relato de Paula podemos compreender a grande importância da acessibilidade para elaboração de qualquer peça de software, seja um app, um e-commerce ou um game por exemplo. A acessibilidade torna projetos mais inclusivos, se ela for bem atendida, todos ganham uma experiência enriquecida.

 

Leonéia Evangelista

Leonéia Evangelista

Analista de Conteúdo em Kinghost
é bacharel em Comunicação Digital pela Unisinos e mestre em Bibliotecas Digitais pelo programa Digital Library Learning (Erasmus Mundus). Trabalha com web há mais de 8 anos e atualmente cursa MBA em Marketing Estratégico.
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